OS BONS, OS MAUS E OS OUTROS
Kafka iniciou a escrita de O Processo em 1914, aos 31 anos, enquanto trabalhava como assessor jurídico numa instituição de seguros de acidentes de trabalho em Praga, então parte da Boémia. O cargo implicava contacto diário com máquinas administrativas estatais e empresariais, e foi nesse contexto de vida que ele foi percebendo, dia após dia, a lei a ser tendencialmente transformada em procedimento e, oportunisticamente, convertida em casos de excepção. Labirintos burocráticos começavam a reduzir o indivíduo à condição de dossier ou processo, normalizando pelo caminho a tal vontade discricionária.
Embora o romance não verse directamente a guerra, a atmosfera que o envolve é indissociável da experiência do autor nesse contexto, porque ele foi assistindo ao colapso da ordem simbólica perpetrado pelo exercício da opressão e da desumanização. É a linguagem da opacidade, da suspensão, da espera inacabável, que hoje reconhecemos com inquietante familiaridade. A narrativa é prodigiosa na transmissão da tensão psicológica e da angústia existencial da personagem Josef K., engolida por uma estrutura que não explica, não acusa, nem absolve.
Kafka deixou o romance inacabado, mas Max Brod, o amigo que teve o discernimento de não cumprir o pedido para que destruísse os manuscritos inéditos, organizou‑o e publicou‑o em 1925, um ano após a morte do autor. Não se enganou na sua leitura e intuição: O Processo não é apenas um clássico incontornável do século XX, é um texto que continua congruente com a realidade do século XXI.
A história de Josef K., um bancário exemplar que, ao completar 30 anos, é detido sem explicação por dois guardas que surgem no seu quarto e o informam de que está a ser processado, sem revelarem a natureza da acusação nem quem o denunciou, transcende o tempo. Mostra a dor, o mal‑estar e a luta do indivíduo quando confrontado com forças poderosas e incompreensíveis, e com a impossibilidade de controlar ou entender a própria vida dentro de um sistema que opera em modo de aleatoriedade permanente. Kafka sabia que o horror não está apenas naquele tribunal, mas na resignação do acusado. O século XXI acrescentou‑lhe uma nova dimensão: a indiferença do espectador global, que observa a erosão lenta das garantias com a mesma apatia com que recebe os grandes números em relatos de catástrofes pela televisão.
Mais recentemente, a história de Mohamedou Ould Slahi, relatada pelo próprio em livro e adaptada ao cinema em O Mauritano, veio lembrar‑nos que a dimensão brutal do universo kafkiano encontra ainda tradução no mundo real. N’O Processo, Josef K. é detido sem saber porquê, perseguido por uma burocracia opaca, submetido a interrogatórios arbitrários e condenado por uma culpa que nunca lhe é revelada. Slahi viveu isto literalmente: quase quinze anos preso em Guantánamo sem acusação formal, submetido a interrogatórios violentos, confissões arrancadas sob tortura, documentos ocultados, decisões adiadas, revisões intermináveis. Após o ataque de 11 de Setembro, o sistema americano precisava de produzir história mesmo quando não havia factos. O que em Kafka é metáfora, em Guantánamo tornou‑se política de Estado. Slahi é suspeito porque o pós‑11 de Setembro precisava de suspeitos. A culpa deixa de ser factual e passa a ser estrutural.
No romance, o tribunal é uma entidade difusa, sem rosto. No caso real, Guantánamo é um espaço jurídico suspenso, um verdadeiro estado de excepção, onde regras existem apenas para legitimar o desvio. Josef K. tenta defender‑se sem saber do quê. Nancy Hollander, a advogada de Slahi, tenta defender um homem contra um Estado que não apresenta provas e que esconde documentos; não se trata, por isso, de provar a inocência dele, mas de defender a Constituição e o princípio de que o Estado não pode deter, torturar ou silenciar alguém sem apresentar provas e sem permitir defesa.
Em Kafka, o processo arrasta‑se até ao absurdo. Em Guantánamo, o tempo é arma: anos de espera, adiamentos, limbos administrativos. O tribunal trata Josef K. como peça descartável. Guantánamo trata Slahi como combatente inimigo, categoria criada para suspender direitos humanos. Um e outro caso preconizam o estado das coisas a que assistimos hoje: uma lógica de loucura onde os conceitos de paz e justiça são frequentemente distorcidos por forças que os ultrapassam e deformam. O Processo é uma alegoria. O Mauritano é a prova de que a alegoria se tornou prática.
E o que está a acontecer hoje, em 2026, vinte e cinco anos após o atentado às torres gémeas e cento e doze anos depois do início da Grande Guerra, que devia ter acabado com todas as guerras? Em quantos campos espalhados pelo mundo estão a ser queimados os valores que nos tornam humanos? Como pensar a nossa agência quando, diariamente, no tabuleiro do poder, escolhas feitas sem critério nem fundamento ético redesenham o mundo e determinam vidas e mortes? A opacidade institucional adensa‑se: decisões sem rosto, processos sem autor, normas que se multiplicam sem explicação. Ajustamos diariamente as velas para continuar a navegar num mar de incertezas, sacrifícios e crescentes assimetrias, mas o pântano alarga‑se sob os nossos pés. Entre os bons, os maus e os outros, continuamos a tentar perceber quem somos, e quanto tempo nos resta até que o processo chegue à nossa porta, crentes de que isso só acontece lá fora, e que lá fora fica longe o suficiente.
