SETEMBRO
À medida que o equinócio de outono se aproxima, sinto, ano após ano, que se repete em mim um reacendimento sistémico. É como se de repente conseguisse respirar melhor, ao mesmo tempo que assisto a uma alteração na respiração da paisagem. Inaugura-se uma claridade oblíqua, uma verdade simples: tudo o que vive responde à luz.
A flora começa a recolher-se. As caducifólias desfazem a clorofila como quem abandona uma máscara antiga, revelando o que sempre esteve por baixo: amarelos, ocres, vermelhos discretos. O sub‑bosque renasce com as primeiras chuvas, e as plantas mediterrânicas retomam uma actividade contida, aproveitando a humidade que regressa depois do verão exausto. Há frutos que adoro que amadurecem: castanhas, bolotas, medronhos, e no meu quintal ainda há colheita generosa de maçãs, uvas e figos, como se a terra oferecesse o último gesto de abundância antes da pausa. É o fotoperíodo, essa medida invisível de luz, que dita o compasso. Nozes e romãs precipitam-se. Os marmelos tiveram de ser colhidos antes do tempo este ano.
A fauna responde com igual precisão. As aves migratórias traçam rotas para sul, como se o céu lhes desse instruções silenciosas. Mamíferos como raposas e ouriços intensificam a procura de alimento, preparando reservas para o frio que se aproxima, e os primeiros já fizeram estragos por aqui. Os insectos diminuem a actividade; anfíbios reaparecem com a humidade; os rios ganham oxigénio com a descida da temperatura e voltam a alcançar as margens. Tudo se reorganiza, tudo se ajusta.
E nós, os caminhantes, percebemos que o outono não é, em nada, decadência, é em tudo transição. É o momento em que a paisagem se torna mais honesta: menos exuberante, mais essencial. A luz baixa, o ar muda, e a vida abranda para poder continuar. Como dizia o Príncipe de Salina, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, é preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma. As neblinas matinais, que me envolvem, que envolvem tudo, tornam-se uma espécie de lente natural: suavizam o contorno das coisas, mas também ampliam a sua presença, expandem os cheiros. É nelas que o outono se revela inteiro.
Por estes dias, e nos próximos meses, respiro com a paisagem numa coreografia silenciosa que progressivamente favorece a vastidão entorpecedora e magnética do reino fungi. Tão verdade quanto uma verdade científica que numa placa de Petri, observada bem de perto, se transfigura em paz e poesia, noção da nossa pequenez insubstituível.
