JORNAL DE DOMINGO


Sugere o jornal que é melhor não provocar mais o narcisista megalómano, ou ele pode, de um momento para o outro, reduzir tudo a pó cósmico ao acionar dispositivos baseados em reacções de fissão, e, em alguns casos, fusão, contidos em ogivas operacionais, cuja detonação desencadearia uma sequência de pirotecnia subsequente, amplificando o espectáculo inicial. A imagem é absurda, mas não deixa de ser inquietante: um adulto que parece nunca ter abandonado certas pulsões infantis transpõe agora para o tabuleiro geopolítico a energia demolidora que, aos seis anos, colocava em cada piparote disferido nos soldadinhos de chumbo, o suficiente para prender a atenção de outrem, mesmo que implicasse desmembrar o próprio brinquedo.

É um querer afirmar-se grande sem deixar de ser pequeno. Ou isso, ou a malícia, a perversidade e a ilusão atingiram a senioridade e, sem aviso prévio, entraram em curto-circuito.

Bunkers salvadores?! Naves especiais?! Fugas para a Nova Zelândia?!

Enquanto isso, outros, mais desprendidos destes apegos infantis, caem em campos de batalha reais, estropiados à força de armas ou de alma arrancada pela violenta separação dos seus afectos.

Noutra página do mesmo jornal, surge uma grande discussão sobre qual o órgão humano responsável por sintetizar o cancro a partir do stress e da infelicidade, como se o corpo tivesse um órgão dedicado a fabricar maldições.

Uma parangona insinua, logo ali ao lado, que é expressamente obrigatório ser feliz, belo, viajado, extrovertido. Inteligência informada não parece ser relevante para o caso, bastando que se partilhe com a maioria da população mundial a visualização dos mesmos vídeos tópicos e virais. Espécimes que não obedeçam a este critério estão superlativamente condenados ao fracasso. Não passarão, os pobres coitados, a menos que se inscrevam numa classe de yoga, integrando-se numa comunidade de fiéis aduladores do aspirante a guru que os libertará de sentir e pensar. Corpo liberto das leis da natureza, lê-se com múltiplas moradas na página de anúncios, mas durante as aulas serão incitadas, as pobres almas, a inscreverem-se em retiros caríssimos no meio da natureza, retiros que as libertarão, afinal, das leis da natureza. O corpo do aspirante a guru não deve ser igual ao dos seus fiéis seguidores. Não, não, não, de certeza que não é composto pelo mesmo tipo de matéria. É um corpo que exala paz e amor. E uma luz que cega.

Mais adiante no jornal, a grande hesitação é entre seguir uma dieta mediterrânea ou suplementar com Lactobacillus rhamnosus R0011, Bifidobacterium longum R0175 e Lactobacillus helveticus R0052, para se tornar uma 50+ com corpo e cara de 20, a partir de um intestino que é o centro gravítico da existência. Com sorte, uma carreira na televisão e muitos posts de dez imagens no Instagram, com dez variações sexy da mesma pose, aumentarão as chances de um lugar honorífico numa organização de grande escala.

Não consigo evitar reparar que os jornalistas no activo, uma parte muito considerável, agora fraseiam pela regra criativamente iniciada pelos jogadores da bola e começam o discurso com “dizer que”, e parecem orgulhosos por fazê-lo. Os revisores devem ter visto aqui uma oportunidade de vingança pelos muitos anos passados na escuridão e dedicam-se hoje a receber pelo trabalho que já não fazem, mas também o novo público não acusa. O leitor do século XXI não atenta a erros ortográficos, de sintaxe ou de semântica; é empático com a falta de exigência, e o português do Brasil misturado com o Português de Portugal está em todo o lado e vai tudo dar ao mesmo. Quem quer saber? Que mesquinharia. Para o que é, basta. Afinal de contas, o que a parte do mundo que não está em guerra quer é leveza, um match para sexta à noite e uma boa festa de verão.


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