VIAGENS

texto + imagens A. Rafael da Silva



Há viagens que atravessamos e outras que nos atravessam. 

Londres em 2003 já não era uma novidade para mim mas foi em tudo novíssima. Várias horas passadas em lojas de música a descobrir canções. Outras tantas passadas a escrever em Green Park. Longas caminhadas solitárias pela cidade entre as seis e as sete horas e meia da manhã. A vista da janela do quarto de hotel por volta das dezanove. O gesto gentil do polícia no metro. O acaso. A tela rasgada do Bruce Nauman na Tate. E o almoço sobre a relva a observar  o caminho da água sob a ponte, a pressa dos yuppies com o seu apego à fast food e aos telemóveis, e o valor do sol numa capital cinzenta. O telefonema do meu melhor amigo a avisar-me de que perdera o transporte de uma cidade vários km mais a norte e a subsequente desilusão de já não nos encontrarmos para contar estrelas e patifarias. A igreja de St. Jame's vazia, com a luz da tarde a partir-se nas múltiplas cores dos vitrais e a tombar evolutivamente, pelo corredor central até atingir o princípio do meu corpo pousado no último banco. No último banco ocupado sorrateiramente, sem convite nem autorização. O eco que suponho que fazemos por dentro quando não nos sentimos presentes e as inesperadas sonatas de Beethoven a recolocarem-me no lugar interior a partir das orelhas. Foi tão generoso aquele músico (descobri um tempo depois, por casualidade, que se chamava Neil Crossland) que veio ensaiar no piano que ocupava o altar. Tolerou a minha quietude e o meu silêncio e desfilou o concerto integral na acústica surpreendente daquele lugar suspenso. Todos esses pedaços de realidade que então senti como miragens místicas trataram-se afinal de procedimentos de uma intervenção cirúrgica bastante contundente, que não procurei mas que me aconteceu e me ajudou incomensuravelmente a regressar.

Há viagens que atravessamos e outras que nos atravessam. 



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