CARTA DO SILÊNCIO ROSA CARDIO - PARA ADÃO

texto + imagem A. Rafael da Silva











 
O pássaro no fio bem que completou os sete sonhos, a parábola de imagens, o aviso. Como um estilhaço estrondoso bem no centro do inconsciente. Uma demanda. O último azimute a despertar-me para arrepiar caminho até ao fim. Mas eu não fui capaz de ligar logo tudo. E eras tu como que a dizeres-me:
- Chega. Presta atenção. Isto aconteceu. E passou demasiado tempo já. Tens de saber. Olha para mim. Sim, sou eu. Estou aqui a olhar para ti, a partir dos sonhos, a partir dos olhos do pássaro no fio. Encontra-me. Traz-me cigarros. Precisamos de falar. Vê-me. Estou a guiar a tua mão sobre as letras certas e tu descobrirás tudo. E compreenderás tudo... Erguerás um copo e brindarás a nós, a tudo o que perdemos um no outro, a tudo o que vivemos um no outro.
E atravessarás a verdade do meu desaparecimento sem medo, como quando passeávamos por entre velharias da Índia e da Argentina, e dançávamos, e usávamos sotaque francês para rir melhor.
E atravessarás a verdade do meu desaparecimento sem medo, como quando eu te defendia da incompreensão e do despeito alheios, aos meus olhos tão injustos, e te levava laranjas a casa, à espera que as espremesses e me oferecesses o sumo que haveria de curar a tua gripe e a nossa solidão.
E atravessarás a verdade do meu desaparecimento sem medo, porque te lembrarás pela vida fora das nossas conversas intermináveis cheias de pó estelar, dos meus sonhos para ti, dos nossos livros velhos lidos em voz alta.

(...)
Mas meu querido amigo, meu irmão, digo-te eu, eu sei que tu sabes que não há coragem nem água que apaguem certos tipos de ausência, porque raro é o toque de quem toca limpo como o ar da manhã que se levanta. E na chama desta compreensão mútua arde uma memória inultrapassável.
Os tempos dos nossos encontros e desencontros foram sempre tão desconcertantes quanto certo foi, e é, o valor do que, ainda assim, conseguimos partilhar. E por isso a saudade irá trepando pelo d que se levanta do teu nome, até onde estejas à minha espera, espero que com laranjas, para nos curarmos juntos da desilusão de a vida ser assim tanto e tão pouca.

Com amor,
A.


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