PRESOS NESTE JOGO

texto + imagem A. Rafael da Silva


acontece também pararmos de vez em quando
aqui e ali para pararmos de facto,
pressentirmos as coisas,

e pode acontecer ela parar também
a flor que envolve a ansiedade,
o descontentamento,
como uma pálida comemoração

convocados todos os animais
dos dedos com os seus perfumes
em arco para o momento em que
a mão toca, remexe, carrega

enfim as cordas começam a libertar memórias
intersticiais começos, insistências falhadas,
promessas que não foram cumpridas,
erro e avanço, sempre erro e avanço

todos nós ficamos presos neste jogo
e o planeta deixa-se apagar
à medida em que os dedos vão recolhendo, um a um,
para fechar o voo, para nos devolver à surdez

percebemos aí que vamos ansiando vagamente pelo céu
caminhando mais ou menos felizes para debaixo da terra

e em fugazes momentos de lucidez invejamos essa possibilidade rasante
sob a asa aberta dos pequenos pássaros que se desprenderam a tempo
das amarras do cais


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