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(excerto)
poema Andreia Rafael

E DISTÂNCIA


- É como um corpo que minga no interior do meu corpo.
  Apertando-me…
  Entende?
  Se eu pudesse contar-lhe…

Quando um arco de violoncelo nos atravessa o coração como se se preparasse para uma derradeira interpretação das suítes de Bach, sentimos uma espécie de Dor. É assim como uma vaga impressão de Céu no interior mutilado de um corpo sem asas.

O pior de tudo ainda é a memória do sangue dos pássaros seco nas vidraças, atrás das quais se escondiam os homens, mas lembro-me melhor do outro lado dos faróis. Lá havia sempre um som a bater ao fundo. Era um acordeão, sim, um acordeão. E ao mesmo tempo que o escutava, escutava ainda uma terra cada vez mais molhada, encharcada, remexida. Suspendia então o meu corpo, com o seu coração atravessado pelo arco, em árvores de raízes aéreas e ali ficava, à espera.
As árvores de raízes aéreas eram o que o segurava enquanto dormia revelado, como uma fotografia a preto e branco. Ele era breve, mais oculto que luminoso e tinha algo de suicida. Disso lembro-me ainda melhor do que do outro lado dos faróis. Observava-o meticulosamente, vagarosamente, apaixonadamente, logo, devo dizer, com extremo cuidado. Antes que as suas mãos imergissem as minhas em fixador, apanhava-as a escrever:

Definitivamente Só.

Lá éramos os dois independentes, um pouco confusos, é certo, mas houve horas do nosso tempo em que fomos quase perfeitos. Desse tempo perdido no tempo só sobrou uma pequena fantasia e um banco para sentar o fim da tarde enquanto é Outono e faz tempo bom do bom tempo.
Não me lembro de recordar o tempo que o tempo me deu, mas só de pensar nisso agora fico com uma espécie de Medo. Uma espécie de Medo que me lembra aquela espécie de Dor. É que, quando tremo, deixo cair as coisas, deixo cair tudo…

Há algum tempo dei-me conta de que com o avançar das estações adquiri um hábito que faz esvoaçar a fome e me ajuda a não cair com as coisas que deixo cair:

Carrego pedras nos bolsos!

Sabe, quando nos dá para pensar é preciso ir do negro ao fumo. É para nos sentirmos menos sós.
Os vigilantes anónimos das ruas nunca devem sentir-se sós. Já reparou que eles volta e meia se põem a dançar com pares invisíveis? E já reparou como eles têm os dentes podres? E mesmo assim são felizes… Bom, disseram-me que são felizes…
É engraçado, enquanto eles dançam pingam tiros, brancos como neve, em redor deles sem atingi-los. São tiros ensurdecedores. Lembram-me duas coisas: esqueleto e pele. E eles dançam em campos contaminados. Esqueleto e pele contaminados.

O rapaz das árvores disse-me um dia que ter morrido em Veneza tinha sido a melhor coisa que lhe tinha acontecido nesse ano. Os rapazes dos sonhos perto do fim caem sempre tão longe do Céu, não é? Mas este tinha um dom e por vezes regressava. Regressava mesmo que não fosse para ficar. Punha-se a regressar.

Por esse eu tropeçava o tempo todo, isto apesar do Medo. Penso que foi por causa dele que adquiri o hábito das pedras. Também comecei a andar com uma lâmina recolhida no centro da minha língua. É para defender-me de ler-lhe o silêncio de amanhã.





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